Wednesday, April 3, 2013

Como ser mãe numa lição...que dura a vida inteira

Floral Path and Door invitation card
© Illustrator: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Como ser mãe...numa lição que dura a vida inteira

Ser uma super-mãe é uma tarefa árdua. Até porque é uma tarefa que não consigo desempenhar. Até agora apenas consegui ser mãe. Simplesmente mãe. E desejarei eu ser de outra forma? Quando chego a casa as crianças correm para mim, com os bracinhos abertos a gritar:
- Mmmmmmmãããããããeeeeee...   

E penduram-se em mim até me atirarem ao chão. Nem sempre, claro. Mas as vezes suficientes para me lembrar disso. Se eu fosse uma super-mãe, certamente que o fariam todas as vezes, com muito tino e andariam o dia todo atrás de mim a gritar baixinho em vozinhas bem educadas:
-Mãe...Mãe...Mãe...Mãe...Mãe...

Ás vezes penso como seria bom que eles tivessem pequenos botões de on/off. Quando estivessem muito entusiasmados, ou eu quisesse refastelar-me no sofá a dormitar, simplesmente os regularia para a posição off. Acho que isso faria de mim uma má-mãe. Felizmente esses interruptores não existem, e eu posso continuar simplesmente a ser mãe.

Quando nasceu a primeira menina, li todos os livros sobre cuidados infantis e educação que encontrei. Mas depressa descobri que não há uma única forma de educar, uma única forma de cuidar. Isto deve-se às diferentes culturas em que estamos inseridos, e também à individualidade de cada criança. No entanto decidi seguir à risca as principais linhas de orientação com que me deparei. Nunca tinha sido mãe e tinha de me guiar por algum lado. Poderia contar sempre com o instinto, quer ele exista ou seja adquirido, mas o instinto nem sempre dá as respostas mais acertadas. Por outro lado queria ser uma super-mãe, como aquelas que se viam na publicidade, com um sorriso fresco sempre no rosto e uma paciência de fazer inveja a Jó.

E no princípio até conseguia sê-lo. Era a primeira menina, pequenina, sossegadinha. Já há algum tempo que a natureza chamava por mim. E Aquela flor era a que eu mais desejava no meu jardim. Veio depois a outra flor, sem dúvida que imensamente diferente. Rechonchudinha e exigente. Um amor. E depois um florinho. Nasceu logo com cara de rapazola maroto.

As refeições também nunca são iguais. Tanto podem comer como pequenos gatinhos esfomeados, como fazer a maior das guerras e comer só a primeira garfada para logo de seguida concluírem que já comeram imenso. Outras vezes são as guerras dos pratos, dos talheres, dos copos. A Sofia só quer a colher e o garfo do rabo vermelho. Até ver os outros aquiescem nisso. Outras vezes a Andreia também quer a colher do rabo vermelho, e felizmente tenho duas. Espero que o João não se manifeste quanto às colheres, de futuro. Até agora não lhe pareceu um assunto de grande importância. Os copos e os pratos também se podem tornar dignos de uma batalha.
Purple Fairy
© Illustration: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com
 

Para acalmar os ânimos e conseguir que nesses dias as crianças comam alguma coisa é necessário usar a imaginação. Inventar histórias a maioria das vezes. Não há magia que uma história não faça. Uma história, para uma mãe, é como a varinha de condão de uma fada. Bem, nem sempre, ás vezes a varinha de condão falha, nem sempre eles querem ser enfeitiçados.

Um dia, a Sofia ficou com um prato com flores em redor e a Andreia e o João com um prato azul, com uma paisagem no fundo e um coche puxado por cavalos. As duas meninas ficaram com um garfo de cabo vermelho cada uma. A Sofia ficou toda satisfeita com os garfos vermelhos, por serem iguais. Mas quando olhou para o prato, entusiasmada para começar a comer, e viu que era diferente do dos irmãos, começou a chorar que queria também um prato igual. Decidi que não iria trocar-lhe o prato, uma vez que já tinha comida dentro, embora tivesse sido uma solução mais fácil no momento. E tirei a varinha de condão de dentro da boca:
-Era uma vez uma princesa que tinha ido apanhar flores ao jardim mais bonito do reinado.
-E depois? – Perguntaram. Como ainda não tinha começado a comer, disse-lhes para comerem porque era absolutamente necessário para continuar a história. Deram a primeira garfada, sem olharem para os pratinhos e de olhos fixos em mim.
-A Princesa apanhou flores maravilhosas, e levou-as para o seu castelo.
Colocou-as com todo o cuidado numa jarrinha que estava em cima da mesa e apontei para a mesa, para perto do local do prato da Sofia. Elas sorriram.
– A princesa afastou-se para chamar o Rei, para que ele pudesse ver as flores que tinha colhido. Entretanto entrou uma fada, atraída pelo odor das flores e começou a brincar por entre as pétalas. E comecei a fazer gestos de fada voadora. "Comam...", Voltei a lembrar. - Entretanto... As flores caíram da jarra, para dentro daquele prato. – Os olhinhos das crianças brilharam de alegria.

A fada assustou-se, e como já se ouviam os passos da princesa a voltar com o rei a fada fez com que as flores ficassem dentro do prato, assim como estão agora. Quando a princesa entrou, começou à procura das flores, e não as encontrando começou a chorar, dizendo que alguém lhe tinha roubado as flores. Chorou, chorou, até que uma lágrima rolou para dentro do pratinho debruado a flores. Este, vêm? – E apontei para o prato. – A princesa ficou encantada com a beleza do prato, e decidiu que a partir dali só comeria naquele prato. E começou a comer.
-Oh mãe, a princesa é a Sofia? – perguntou a Andreia.
-É, claro, e tu também, só que não tens um prato de flores.
-E o príncipe? – perguntou a Sofia.
-O príncipe está dentro do prato da Andreia.
-Porquê? – perguntaram.
-O príncipe vinha de uma longa caçada nos bosques. Estava cheio de fome e vinha para o castelo almoçar. Aproveitou para dormir uma soneca dentro do coche, pois estava muito cansado. A fada ia a passar na rua, e achou que a paisagem era linda, com os cavalos a cavalgar e as montanhas por trás. Resolveu colocar aquela paisagem tão bonita dentro de outro prato, para que todos a pudessem ver. O príncipe acordou quando sentiu que os cavalos tinham parado súbitamente. “O que se passa?”, gritou. “Estou aqui preso! Tirem-me daqui!!!”

Agarrei no prato que tinha o príncipe preso e deitei-lhe mais puré com carne picada, mesmo em cima da carruagem. Logo de seguida ouviu-se o príncipe gritar:
-“ Ei!!! Tirem-me isto de cima! O que é esta coisa amarela e castanha? O meu lindo fato castanho, todo sujo”... A fada apercebeu-se do que tinha feito e quis desfazer o encanto. Mas primeiro teve de esperar que as princesas acabassem a sua refeição, para que pudesse tirar o príncipe do prato.
-Oh mãe, e depois?
-Agora temos de esperar que as princesas acabem de comer o seu puré para que a fada possa desfazer o encanto. As meninas recomeçaram a comer com entusiasmo, aguardando o desfecho da história, enquanto que o príncipe ia estrebuchando debaixo da montanha de puré. O pequeno, que em pouco se mostrara interessado na sorte do príncipe, apenas rindo feliz nas partes de mímica e interjeições, deu a refeição por terminada, e tive de me ausentar da mesa com ele. Isto teve como resultado as garotas não acabarem de comer tudo, deixando o pobre príncipe aguardando outra sorte que não ser salvo pela fada para ir ter com a sua princesa. Até outra oportunidade ou se lembrarem do pobre príncipe preso no prato numa próxima refeição, ele ficará ali esquecido. Esquecido não será bem o termo.

Ficou ali preso sim, mas foi tomar uma bela banhoca na máquina de lavar louça, com fato de caça, cavalos, coche, montanhas e tudo. Isto não é forma de se tratar Sua Alteza, mas que me desculpe, que eu não estava com tempo para delicadezas.

 
Ouvi-los brincar de forma mais violenta quebra a serenidade de qualquer ser humano comum. Ouvir um baque surdo é dos piores ruídos que uma mãe pode ouvir quando está numa sala contígua. De imediato nos vem à ideia uma cabeça rachada ou horrivelmente mutilada. Corremos com a aflição na alma, atirando pelo ar as batatas que estamos a descascar e entramos com um ar espavorido na sala onde as crianças brincam, ainda de faca na mão.

É um alívio quando o baque era afinal uma simples joelhada na parede, ou eles a rolarem propositadamente pelo chão, batendo com os cotovelos ou os joelhos. Um alívio que é sentido como dor, por termos de voltar para a cozinha e não podermos ficar a vigiar mais de perto a brincadeira. Até ao fim da preparação da refeição, corremos mais duas ou três vezes para ver o que se passa, até que algum deles se magoou verdadeiramente e sejam obrigados a ficar mais sossegados, obrigação que dura 1 minuto no máximo. Um bom galo é motivo para atrasar o jantar uma meia hora.

Bolas, outra vez os botões de on/off me vêm à ideia. Não sei se fico aborrecida por não existirem, se aborrecida comigo por pensar numa coisa tão feia. Má mãe, má mãe! Desempenhar tarefas com eles seria muito agradável, não fosse a falta de tempo que os empregos nos infligem. Saímos cedo, quase sem tempo de lhes depositar um beijinho na face, e umas cóceguinhas entre as calças e a camisola.

Trabalhamos todo o dia, em pouco contribuindo para a felicidade da família. Apenas uma triste contribuição monetária, que, para além de indispensável para as necessidades primárias, pouco mais traz a não ser a falta de tempo e de alegria necessária. Deixá-los nas creches, na ama, onde quer que seja, para que sejam criados por estranhos às nossas ideologias, à nossa forma de ver o mundo. O que não significa que isto seja mau para eles, de forma alguma. Ver o mundo por outras perspectivas é também muito importante para a sua formação, mas ver o mundo quase inteiramente por outros olhos é que não está correcto. Como se o estranho, súbitamente, fossemos nós.

Célia Maria Ribeiro Ascenso
terça-feira, 16 de Outubro de 2001

6 comments:

  1. Celia,
    talvez ainda não,mas logo logo,eles quererão lhe colocar um botão também[on/off]...tive somente um filho,e acho que ficaria louca com três,assim de escadinha...rs,

    obrigada pelo comentário,beijo.

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    1. :) Entretanto já tenho 5, mas já começo a ver esse (malfadado) botão a pairar em meu redor... Mãaaeee, por favooor....
      Obrigada

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  2. Thank you Alvera, what would you expect from a Right Hand?

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