Friday, March 29, 2013

Simple Man - Lynyrd Skynyrd

Snowy Mountain Greeting Card
© Illustration: Celia Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Simple Man

Mama told me when I was young
Come sit beside me, my only son
And listen closely to what I say
And if you do this it will help you some sunny day

Take your time, don't live too fast
Troubles will come and they will pass
Go find a woman and you'll find love
And don't forget, son there is someone up above

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Forget your lust for the rich man's gold
All that you need is in your soul
And you can do this if you try
All that I want for you my son?
Is to be satisfied

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Boy, don't you worry, you'll find yourself
Follow your heart and nothing else
And you can do this if you try
All I want for you my son
Is to be satisfied

And be a simple kind of man
Be something you love and understand
Baby, be a simple kind of man
Won't you do this for me, son?
If you can?

Baby, be a simple man
Be something you love and understand
Baby, be a simple man
Lynyrd Skynyrd



Homem Simples

Minha mãe disse-me quando eu era novo
Vem sentar-te ao meu lado, meu único filho,
E escuta com atenção o que eu te digo.
E se fizeres isto, vai ajudar-te num belo dia.

Não tenhas pressa, não vivas tão rápido
Dificuldades virão e passarão.
Encontra uma mulher e encontrarás o amor,
E não te esqueças, filho, há alguém lá em cima.

E sê um tipo de homem simples.
Seja algo que gostes e entendas.
Querido, sê um tipo de homem simples.
Não farás isto por mim, filho?
Se puderes?

Esqueçe o teu desejo pelo ouro de homem rico
Tudo o que precisas está na tua alma,
E podes fazer isto se tentares.
Tudo o que eu quero para ti meu filho,
É para ser realizado.

E sê um tipo de homem simples.
Sê algo que ames e entendas.
Querido, sê um tipo de homem simples.
Não farás isto por mim, filho?
Se puderes?

Rapaz, não te preocupes, vais encontrar-te.
Segue o teu coração e nada mais.
E podes fazer isto se tentares.
Tudo o que eu quero para ti meu filho,
É para ser realizado.

E sê um tipo de homem simples.
Sê algo que ames e entendas.
Querido, sê um tipo de homem simples.
Não farás isto por mim, filho?
Se puderes?

Querido, sê um tipo de homem simples.
Sê algo que ames e entendas.
Querido, sê um homem simples.
Lynyrd Skynyrd

Wednesday, March 27, 2013

"Pândegas" no Alto Minho


Piano Keys Flowers
© Image: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Este trabalho foi efectuado com base numa conversa com a D. Madalena da Piedade Martins Domingues, com 75 anos de idade. Nascida em 1924 na freguesia do Amonde, concelho de Viana do Castelo, aí viveu até aos 26 anos de idade, imigrando depois para a Estremadura. Por este motivo, as suas recordações sobre as formas como se vivia na sua terra dificilmente se alteraram, uma vez que só possui a imagem de como se dançava e vivia naquela altura. As suas recordações não foram matizadas pelas alterações posteriormente introduzidas. As facilidades de comunicações que hoje fazem que todos tenham visto ou visitado as grandes cidades contribuiram para que muitas danças da gente do povo tenham sido adulteradas, esquecidas e eventualmente substituídas ( Ribas, 1961:11).

As raparigas juntavam-se e combinavam umas com as outras ir falar com um rapaz para que levasse a sua concertina. Quase todos os rapazes tinham concertinas, pois eram transmitidas dos pais para os filhos, e todos sabiam tocar esse instrumento. Depois juntavam-se todos a tocar e a dançar. Só um rapaz de cada vez tocava a concertina, ora tocava um rapaz, ora tocava outro. Não era sempre o mesmo, pois estes iam-se substituindo para que todos pudessem dançar. Às vezes o próprio músico dançava enquanto tocava. As músicas eram complementadas com as cantigas e com o estalar de dedos, consoante a dança executada.
Dançavam aos Domingos, às sombras dos carvalhos, nuns descampados com relva. O local escolhido não era sempre o mesmo. Também podia ser no largo da aldeia, principalmente no Inverno. Começavam a dançar pelo princípio da tarde, e só terminavam ao cair da noite. Durante as semana não se dançava, excepto nas desfolhadas quando as raparigas iam à ceifa do centeio. Quando os rapazes sabiam que havia uma dessas ceifas, juntavam-se ao fim do dia e esperavam as raparigas para dançar. De noite não se dançava, pois as raparigas já deveriam estar recolhidas na segurança do lar.

Nas desfolhadas do milho abria-se uma excepção a esta regra, e dançava-se à luz de candeeiros e candeias a petróleo, pois não havia electricidade.
A letra seguinte ilustra bem o sentimento em relação às danças e os temas focados:
As desfolhadas d'aldeia
São feitas de lindas cores
Até à luz da candeia
Suspiram versos de Amor.
Até à luz da candeia
Suspiram versos de Amor.
Ó vira que vira
Torna-se a virar
As voltas do vira
São boas de dar.

 As mães acompanhavam as filhas pela altura das desfolhadas, uma vez que as danças por essa ocasião eram feitas de noite. Nos dias normais já não havia essa necessidade, pois à luz do dia as raparigas já não necessitariam de guarda cerrada, uma vez que isto era feito conjuntamente por todos e que havia respeito às raparigas nessas danças. Poderiam ir, não como obrigação, mas para ver, para cantar com os dançarinos e eventualmente recordar a sua própria mocidade.

A maioria das danças não implicava contacto corporal com o par, com algumas excepções. As danças que implicavam contacto corporal eram a valsa, o corridinho, a chula, a marcha. As danças em que se dançava frente-a-frente eram essencialmente os viras, como o "Vira de Santa Marta", o "Vira de quatro", o "Vira do meio", a "Rosinha do Meio". Apesar de se chamar vira a uma das formas de dança, cada vira tinha a sua coreografia bem definida. Em comum , os viras tinham o gesto de se dançar com as mão levantadas acima da cabeça, estalando os dedos, gesto a que chamavam "bater castanholas". Incluíam também na coreografia o rodar sobre si próprio em consonância com o par. No "Vira de quatro" dançavam quatro a quatro. Podiam dançar quatro, oito, doze pessoas, mas sempre em grupos de quatro. No "Vira do meio", a rapariga e o rapaz batiam com o pé no meio, e depois passavam um pelo outro. Havia uma grande variedade nas coreografias. O simbolismo destas coreografias e gestos requer um estudo mais aprofundado, que não foi possível efectua uma só entrevista e com a bibliografia disponível. A dança é usada para comunicar uma variedade de ideias e emoções, mas isto não é claramente evidente, pois o seu significado varia consoante a sociedade em que está inserida. Na dança, a comunicação afectiva e cognitiva estão interligadas (Hanna, 1977:217).
As letras das cantigas versavam essencialmente sobre o trabalho no campo, os namoros e a mãe. A letra da "Rosinha do Meio" ilustra esta afirmação:
Ó Rosinha, ó Rosinha do meio
Vem comigo malhar o centeio
O centeio, o centeio, a cevada
Ó Rosinha, minha namorada.
Haviam sempre dois rapazes que tomavam conta destas "pândegas", como eram apelidados estes ajuntamentos para dançar, cantar e conversar. Eram estes rapazes que mantinham o respeito e que intervinham sempre que havia algum problema. A sua missão era a de ajuizar e decidir quem tinha infringido as regras ou não. A punição para a infracção das regras era o impedimento de dançar durante o resto do dia. Estes rapazes eram rapazes mais velhos, também eles dançarinos.

Existiam várias regras que se deveriam cumprir. Uma delas era que as raparigas não se poderiam recusar a dançar com o rapaz que as convidava, mesmo que este fosse do seu desagrado. Se não aceitasse, então não poderia dançar mais. Ao aceitar, na próxima dança estaria disponível para dançar com qualquer outro que a convidasse, incluindo o mesmo. Acontecia muitas vezes uma rapariga ir dançar com um rapaz de que não gostava, só para poder continuar a dançar. Esta regra teria a função de reafirmar o poder dos homens sobre as mulheres, numa sociedade em que são as mulheres que tratam dos mais variados aspectos da vida quotidiana, como a casa, os filhos, o trabalho no campo ligado à terra. Embora se afirme que o homem deve possuir um maior poder do que a mulher no seio da casa, reconhece-se que o poder da mulher é importante, podendo muitas vezes ser superior ao do marido (Pina-Cabral, 1989:114). Os homens teriam a necessidade de criar várias regras para reafirmar a sua posição no seio da sociedade, e isto reflecte-se em todos os campos do quotidiano, incluindo as danças.

Outra regra era que não deveria haver falta de respeito. Aquele era um local de divertimento, e para que não houvessem problemas, e as raparigas pudessem continuar a ir às "pandegas", as liberdades sexuais deveriam ocorrer fora daquele local. Se algum rapaz era atrevido em demasia com uma rapariga, de imediato se juntavam ali os rapazes e impediam o rapaz desrespeitador de dançar com qualquer rapariga que fosse. Ditos jocosos, dizeres brejeiros, um olhar amarotado eram permitidos, uma vez que estas "pândegas" também cumpriam a função de aliviar as tensões e restrições impostas por uma sociedade sexualmente repressiva. Estas pândegas eram um ponto de encontro em que permitido aos rapazes e raparigas estarem juntos, quer visualmente, quer corporalmente, no caso de algumas danças. Aqui, rapazes e raparigas conviviam em grupo, numa atmosfera de alegre excitação.

Os dançarinos eram rapazes e as raparigas solteiras, embora um ou outro casal ainda jovem pudessem também juntar-se à dança. Esses rapazes solteiros poderiam dançar com qualquer outra rapariga, independente se esta tinha ou não namorado, e vice-versa. Isto era aleatório, e dependia da vontade dos rapazes, pois estes gostavam de dançar com diversas parceiras. Um rapaz que namorasse uma rapariga não se poderia opor a que outro rapaz fosse buscar a sua namorada. Isto cumpre a função de, por um lado, reafirmar o carácter de respeito existente nas "pândegas", e por outro lado, evidencia a liberdade e possibilidade de troca que existe antes do casamento em oposição à irreversibilidade do casamento. Se um rapaz namorava uma rapariga, isso não significava que iria obrigatoriamente casar com ela. Normalmente havia a possibilidade de escolha, tanto da parte do rapaz como da parte da rapariga, no que respeita aos namoros, e a possibilidade de escolha por parte do rapaz no que respeita às danças. Somente os pares já casados é que se mantinham fielmente a dançar um com o outro, e se houvesse alguém que quisesse dançar com uma mulher casada, teria de pedir primeiro licença ao marido. Isto poderia acontecer se essa mulher fosse muito boa dançarina.

As danças eram sempre feitas na freguesia, com os rapazes e raparigas desse mesmo local. Só se ia dançar às outras freguesias por ocasião das festas. Assim, os rapazes de outras freguesias não podiam vir dançar com as moças desta freguesia, acontecendo o mesmo nas freguesias circundantes. Pela altura das festas da aldeia, poderiam vir dançar, mas teriam de trazer os pares da sua própria terra. Do mesmo modo, um rapaz de uma freguesia vizinha não poderia namorar com uma rapariga de outra freguesia. Para o fazer, teria de pagar a "carta". Para se pagar a "carta", o rapaz da freguesia vizinha teria de pagar aos rapazes da terra as bebidas e comida que estes quisessem na taberna da aldeia num único dia. Uma vez efectuado este ritual de integração, o rapaz já poderia namorar e dançar com essa rapariga, continuando a não o poder fazer com as outras moças. A rapariga poderia, e deveria, continuar a dançar com os rapazes da sua freguesia.

Nos intervalos das danças conversavam alegremente e combinavam também a dança para o Domingo seguinte. As moças falavam entre si acerca dos rapazes, confessavam de quem gostavam, de quem não gostavam, dos atrevimentos destes. Quando os dois sexos conversavam juntos, os rapazes tentavam adivinhar de quem é que as raparigas gostavam, com estas negando o seu interesse por eles. As conversas poderiam variar, mas centravam-se no tema dos amores e desamores, na escolha do futuro companheiro, o que vem reafirmar a função social das danças.

Ao Domingo, o traje era o vestuário normal, igual ao usado durante a semana para o trabalho, usando-se no entanto o fato mais novo. Quando este ficava com um aspecto usado, passava a vestir-se durante a semana e confeccionava-se outro traje. Consistia numa saia de linho branco com uma renda na bainha, uma saia de lã às riscas verticais, pretas brancas e vermelhas, com um avental por cima. A camisa era de linho branco e também se podiam usar bordadas a azul no ombro. Usavam também um colete justo, apertado à frente com ilhós e um cordão. Este colete era confeccionado em várias cores, por exemplo preto nas costas e vermelho à frente, e era bordado tanto nas costas como na frente. O lenço ao ombro era só usado no fato "à lavradeira", que estava reservado para as festas ou para as ocasiões importantes. As moças dançavam descalças. Nos cabelos usavam sempre um lenço, pois não podiam andar com o cabelo descoberto, nem a dançar, nem em qualquer outra actividade. Os rapazes usavam uma bóina, um chapéu, ou andavam de cabeça descoberta, conforme preferissem. Calçavam sapatos ou tamancos de madeira. Usavam umas calças, uma camisa e colete simples. Quando pretendiam ir mais bonitas, as moças combinavam entre si, e vestiam os fatos "à Lavradeira", calçavam as chinelas e usavam os seus cordões de ouro. A maioria das moças possuía um só cordão, dois, três no máximo. Os brincos, ao inverso dos cordões de ouro, erram sempre usados. Os chamados brincos "à rainha" podiam chegar até aos ombros. Estes brincos, bastante pesados, saltitavam fulgurantemente durante as danças. As argolas de ouro também eram usadas.

Nas festas da freguesia, as raparigas vestiam o fato "à Lavradeira". Calçavam especialmente umas chinelas, que poderiam ser de calfe ou verniz. Esta chinelas tinham uma forma especial, sem pé direito nem esquerdo, de modo que se adaptavam a qualquer pé. Assim, quando a dançar, um chinelo lhes cai, rapidamente o poderiam voltar a calçar sem a preocupação de saber a que pé pertenceria (Costa, 1987:232). Calçavam ainda nos pés umas meias lavradas de algodão, de cor branca. Às festas das freguesias vizinhas iam descalças, com uma fita atada em redor das saias, em jeito de arregaçar. Quando as moças vizinhas vinham às festas da freguesia, a situação invertia-se: seriam eles a vir descalças e de saias arregaçadas, e as moças da freguesia com as saias compostas e com as chinelas calçadas. O comprimento das saias ficava pelo meio da perna, e quando arregaçadas, estas subiam aos joelhos. Durante as danças de Domingo, poder-se-ia arregaçar a saia ou não.

As festas principais da freguesia do Amonde eram duas: a festa da Santa Quitéria, que se fazia no Domingo da Pascoela, e a festa da Senhora das Necessidades, a oito de Setembro. Quando iam a festas de outras freguesias, os rapazes e raparigas caminhavam em ranchos, e chegados a essas festas, dançavam somente com os membros das próprias freguesias, um grupo e uma concertina ao lado de outro grupo com a sua concertina. Formavam assim vários grupos coesos. Destes ranchos que se deslocavam às festas vizinhas é que surgiu a designação de Rancho para designar os grupos que recriam as danças dessas alturas.

Durante os Invernos, quando chovia, ficavam as moças em casa, mas assim que parava de chover, aproveitavam a oportunidade para se juntarem a dançar.

As crianças aprendiam a dançar desde pequeninas. Iam também às "pândegas", e desde que já sabiam andar, ensaiavam os primeiro passos desajeitados. Era uma aprendizagem por imitação, em que as crianças observavam e tentavam imitar os passos dos adultos. As crianças que já tinham aprendido a coreografia já poderiam dançar com os jovens e adultos. Uma criança de quatro anos já saberiam a coreografia de grande parte das danças, e por volta dos sete, oito anos já poderia dançar com os adultos.

A dança era um dos meios de divertimento principais, especialmente para as raparigas. As rapazes, para além da dança, também tinham como forma de entretenimento o jogo da malha, ou o jogo das cartas. Encontravam-se para este efeito na taberna, local em que não era permitido às moças permanecerem, excepto para ir às compras.

Com o progresso das técnicas, e o aumento dos meios de comunicação, foi-se operando uma grande transformação nestas formas de expressão lúdica, na música vocal, instrumental ou na dança. Até aos anos 30, 40 cada área cultural mantinha-se num relativo isolamento, embora não estivesse inteiramente segregada do resto do país (Dias, 1970: 8). Por este motivo, as danças mantinham as suas características muito próprias, a sua individualidade regional.

A dança é um fenómeno cultural, social e artístico que ocupa um lugar fundamental no vida das comunidades humanas. Devem ser entendidas como prática corpórea e emocional que produz acontecimentos sociais e culturais importantes nas comunidades humanas. É um veículo privilegiado de expressão da experiência humana (Fazenda, 1998:61). Para além da sua dimensão estética e padrões formais analisáveis, envolve práticas religiosas, festivas, políticas e económicas. Incorpora ainda os valores e as visões do mundo, as estruturas e formas de organização social de um grupo.

A dança proporciona e comunica uma excitação que Turner (1974, in Hanna, 1977) descreve como liminaridade, que consiste na suspensão das regras e condições habituais, transformando-as em ritos de passagem que marcam mudanças no estado social, cultural ou psicológico. O corpo liberta-se das amarras impostas pelas regras sociais, regras estas que ditam como andar, como estar parado, como sentar, impedindo o corpo de se mover a seu bel-prazer. Através da dança, este fica livre para se mover, para se exprimir gestualmente, muito embora dentro de uma coreografia bem definida para muitas das sociedades, incluindo esta.


Bibliografia

Costa, Amadeu (1987) - O Traje Vermelho, à Vianesa, in Cadernos Vianenses, Tomo X, Edição da Câmara Municipal, Viana do Castelo.
Dias, A. Jorge (1970) - Da música e da dança, como formas de expressão espontânea populares, aos ranchos folclóricos, Separata do Colóquio 2 - Tomo III - Das Publicações do XXIX Congresso Luso-Espanhol, Lisboa.
Fazenda, Maria José (1998) - A dança no seio da reflexão antropológica. Contributos e limitações herdados do passado com ecos no presente, in Trabalhos de Antropologia e Etnologia, Vol. 38, Fascículos 1-2, Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Porto.
Hanna, Judith Lynne (1977) - To dance Is Human, in The Anthropology Of The Body, Academic Press, London.
Pina-Cabral, João de (1989) - Filhos de Adão, filhas de Eva, A visão do mundo camponesa do Alto Minho, Publicações D. Quixote, Lisboa.
Ribas, Tomaz (1961) - Danças do Povo Português, Série F, Número 8, Direcção-geral do ensino primário, Gráfica Boa Nova, Lisboa.


Célia Maria Ribeiro Ascenso 1999
Antropologia, Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade de Coimbra

Tuesday, March 26, 2013

Sex-ratio primaria nos humanos

Rabbits in love seamless background
© Illustration: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com
Sex-ratio primária nos humanos

Trabalho elaborado por Célia Maria Ribeiro Ascenso
Curso de Antropologia, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Coimbra,1998

Introdução

A sex-ratio representa a percentagem de machos em relação às fêmeas.
Há vários conceitos de sex-ratio:
· Sex-ratio primária: é a proporção encontrada à data da fecundação, que deve ser teóricamente igual a 1.
· Sex-ratio secundária: é a proporção encontrada à nascença e durante o primeiro ano de vida. Esta proporção será diferente na sex-ratio primária, pois o percurso desde a concepção até ao nascimento pode ser interrompido devido à inviabilidade do zigoto, feto ou qualquer que seja o estádio de desenvolvimento da nova cria. Após o nascimento, há comportamentos diferenciados consoante a criança seja do sexo masculino ou do sexo feminino, podendo este investimento diferencial levar à morte da cria, quer seja esta por negligência ou intencional.
· Sex-ratio à morte: é a proporção dos sexos nos adultos, após os 25 anos, em que se verifica que a sex-ratio secundária nos humanos tem tendência a inverter-se, passando a haver mais fêmeas que machos, devido à mortalidade mais precoce destes em relação às fêmeas.

Considerações gerais

No momento da formação dos gâmetas, a sex-ratio deve ser teóricamente igual à unidade, dado que o sexo heterogamético fornece sempre tantos gâmetas masculinos como gâmetas femininos. Este determinismo leva-nos a duvidar que a sex-ratio possa ser diferente da unidade. Mas na realidade a proporção dos nascimentos varia, pois nem todos os embriões sobrevivem. Na espécie humana nascem constantemente mais rapazes do que raparigas. A sex-ratio varia de 104,5 a 108,3, conforme as épocas e os países (Ruffié, 1987).
Darwin verificou que em diversas espécies, sobretudo mamíferos, mahos e fêmeas eram produzidos em números idênticos, e concluiu que isso só poderia dever-se à selecção natural, o que conferia uma vantagem selectiva aos progenitores e não à espécie. Mas ter só filhos, só filhas ou ambos não parecia interferir na aptidão dos progenitores, o que o levou a concluir que machos e fêmeas eram produzidos em números iguais para maximizar o potencial da propagação da espécie. Este argumento não explica porque é que nas espécies poligínicas continuem a haver números idênticos de machos e fêmeas (como é o caso do leão marinho, sendo no entanto só 4% dos machos reponsáveis pela maioria das cópulas efectuadas). Se a razão dos sexos servisse o bem da espécie, então os machos deveriam ser bem menos numerosos em relação às fêmeas, porque nas espécies sexuadas cada macho pode fertilizar várias fêmeas (Gould 1980). Esta teoria é depois reformulada por Fisher (1930 in Alvarez, 1995), em que a selecção natural actua sobre a sex-ratio a nível individual e não para o bem da espécie. Segundo Fisher, cada progenitor dispõe de um certo capital biológico para investir na produção de filhos e filhas. Esse capital biológico será investido no género que mais lucros lhes poderão trazer pela propagação dos seus genes. Num estado de equilíbrio, a sex-ratio será de 1:1, pois cada filho custa o mesmo que criar uma filha. Mas quando o custo associado à produção de cada sexo diverge, a sex-ratio secundária será diferente de 1:1. Se se verificasse que um dos sexos nascia mais do que outro, os reprodutores desse sexo sofreriam uma perda do sucesso reprodutivo, e os do sexo oposto um ganho. Mas a selecção natural depressa reequilibraria a situação : é a teoria da estratégia de estabilidade evolutiva.
Na realidade, esta teoria é refutada em casos concretos. Nas populações humanas, verifica-se que a sex-ratio secundária é muitas vezes bastante superior à média teórica esperada. A mortalidade diferencial por sexo dos gâmetas, zigotos, fetos ou jovens enquanto dependentes dos progenitores é um mecanismo possível para desviar o investimento para o sexo desejado. O investimento parental é qualquer investimento por parte do progenitor numa cria individual, que aumenta a probabilidade de sobrevivência da cria, pelo custo da capacidade do progenitor de investir noutra cria (Trivers, 1972). Trivers e Willard (1973) propuseram que havia correlação entre a sex-ratio secundária e o nível sócio-económico. Para avaliar o impacto deste efeito numa população, o valor do desvio da sex-ratio deve ser tomado em conta ao nascimento ou a qualquer outro momento, desde a concepção até à morte, para detectar a idade em que o investimento parental exerce o seu efeito na sobrevivência das crias.
Será para a sex-ratio primária que nos viraremos nos próximos pontos, sem perder de vista o seu significado dentro da resposta estratégica do investimento parental diferencial na maximização do sucesso reprodutivo.

Dificuldades no estudo da sex-ratio primária no homem

Não é possível, no homem, um estudo directo da sex-ratio primária, uma vez que isso implicaria o estudo da constituição cromossómica de um grande número de óvulos recém fertilizados. Este estudo é feito indirectamente, através da avaliação dos abortos espontâneos que ocorrem antes do parto e do número de nados-mortos:

· Até às 7 semanas, só a análise do cariótipo do núcleo das células nos diz qual o sexo do embrião. Estudos sobre abortos espontâneos que identificavam o sexo por cariótipo mostravam uma sex-ratio de 111 (Stinson, 1985). Mas a contaminação dos tecidos do feto pelos tecidos da mãe poderia estar a camuflar os verdadeiros valores, que se estimou poderem atingir uma sex-ratio de abortos cromossómicamente normais de 123. Mas os abortos que ocorrem antes da oitava semana de gravidez são muito difíceis de detectar, e por esse motivo, estes estudos de cariótipo referem-se à sex-ratio de abortos espontâneos pelas 12 semanas.
· A partir das 12 semanas, a observação das gónadas pode ser feita por estudo histológico.
· A partir das 20 semanas, a identificação do sexo faz-se por observação externa dos orgãos genitais.

Este estudo é mais acentuado no segundo e terceiro trimestres, havendo muito poucos dados para o primeiro trimestre.

Tendências da sex-ratio no segundo e terceiro trimestre de gravidez

A mortalidade pré-natal tem-se revelado superior no sexo masculino, mas tem-se observado uma tendência secular para a descida da sex-ratio nos nados-mortos atribuída aos cuidados obstétricos melhorados (Teitelbaum, 1971; Ulizzi, 1983 in Sieff, 1990). Teitelbaum verificou que em alguns países esta tendência foi acompanhada por um aumento das mortes masculinas na primeira semana de vida. A ideia de que os machos são mais susceptíveis do que as fêmeas aos stress ambiental é muito comum (Tanner, 1962; Cavalli-Sforza and Bodmer, 1971; Stini, 1975, 1982; McMillen 1979; Clutton-Brock, Scott, and Dickman, 1985 in Sieff, 1990). Mas estas diferenças tendem a ser suavizadas pela melhoria das condições de vida e dos cuidados de saúde. Por este motivo encontrou-se uma relação inversa entre o nível sócio-económico e a sex-ratio dos nados-mortos (Neye et al, 1971).

O stress nutricional também pode contribuir para esta mortalidade tendencialmente masculina, pré-natal e pós-natal, apesar de James (1987 in Sieff, 1990) argumentar que os efeitos são relativamente fracos nos humanos. Estudos com ratos dos bosques, hamsters dourados e ratos domésticos mostraram que mães em pobres condições geram ninhadas tendencialmente femininas. Gosling (1986 in Sieff, 1990) relatou sex-ratios de acordo com o estado nutricional da mãe. Mães com muita gordura abortavam pequenas ninhadas com mais crias femininas, mas não grandes ninhadas nem ninhadas com mais crias masculinas. Mães com pouca gordura não abortavam ninhadas.

O stress social durante a gravidez pode também afectar a sex-ratio ao nascimento. Nos primatas não humanos, as fêmeas de status mais elevado têm tendência a atacar as de status inferior se estas são portadoras de fetos de determinado sexo (Sackett, 1981; Silk, 1983; Small e Smith, 1984 in Sieff, 1990). Entre os macacos Ateles paniscus, as fêmeas de status elevado produzem crias com uma sex-ratio aproximada de 100, enquanto que as fêmeas de baixo status produzem quase inteiramente filhas. Symington (1987 in Sieff, 1990) argumenta que a mortalidade diferencial de machos e fêmeas no útero é a causa provável.
No entanto, não sabemos qual o comportamento da sex-ratio no primeiro trimestre de gravidez, o que seria de grande importância conhecer, pois estima-se que 90% dos abortos espontâneos ocorrem durante este trimestre, desconhecendo-se por este motivo a proporção de machos e fêmeas na altura da concepção. Para que a sex-ratio possa favorecer os machos ao nascimento, e para que possa haver uma tão elevada mortalidade masculina no período que compreende a concepção e o nascimento, seria necessário que houvesse uma elevada mortalidade feminina neste primeiro trimestre, considerando a igualdade na proporção dos sexos à concepção, ou, a manter-se no primeiro trimestre uma tendência idêntica na mortalidade masculina à dos segundo e terceiro trimestres, a proporção dos sexos à concepção deveria ser fortemente desviada em favor do sexo masculino. Devemos, por esse motivo, passar aos mecanismos fisiológicos da escolha dos sexos.

Mecanismos fisiológicos da escolha dos sexos

Como já foi considerado anteriormente, se a sex-ratio ao nascimento é superior, não podemos deixar de considerar que os zigotos XY têm uma implantação preferencial sobre os zigotos XX, quer seja por serem mais numerosos, quer seja por serem mais viáveis. As razões que se prendem com esta implantação preferencial não têm a ver com o suposto facto de haver maior quantidade de espematozóides Y, nem da sua suposta maior mobilidade, pois estudos revelam que a os espermatozóides masculinos e femininos apresentam mobilidades idênticas (Benet et al., 1992), e a proporção entre estes dois tipos varia entre a igualdade e um ligeiro excesso de espermatozóides X.
Uma hipótese para o excesso de machos ao nascimentos é a de que os espermatozóides X ou os zigotos XY possam ser mais sensíveis ao sistema imunitário da mãe. O sistema imunitário desta reage à presença dos espermatozóides o dos zigotos produzindo anticorpos que vão reagir com os antigenes do intruso (Daya e Clarck, 1992). Estudos mostram que anticorpos como o anti-zona e o anti-esperma são reponsáveis por limitar a capacidade de fertilização in vitro (Charnov 1982). O anticorpo anti-zona, zona pellucida, é uma glycoproteína acelular que está em redor do oócito durante a foliculogénese, e serve para ligar o espermatozóide no primeiro estádio da fertilização, participa no barramento à polispermia em certas espécies e protege e isola o embrião durante o estádio de implantação e desenvolvimento. O anticorpo anti-esperma reduz o número dos espermatozóides móveis na ejaculação.
Outra hipótese para explicar o excesso de machos ao nascimento foi colocada po James (1986): As hormonas presentes no organismo materno e no organismo paterno, tais como gonadotrofinas, estrogéneos, progesterona e testosterona, na altura da concepção podem influênciar o sexo do zigoto, embora haja poucas provas de como é que isto ocorre (Levin, 1987 in Sieff, 1990). Um nível elevado de gonadotrofinas maternais na concepção correlaciona-se com um desvio para o sexo feminino. Um nível elevado de estrogéneos correlaciona-se com um desvio para o sexo masculino. O nível de gonadotrofinas aumenta bruscamente na altura da ovulação, e por esse motivo altas sex-ratios seriam esperadas como resultado da inseminação mais cedo ou mais tardia que o pico da ovulação, pois nessa altura predominam os estrogéneos. Os dados que mais apoiam esta hipótese provêm da análise dos valores da sex-ratio desviada para o sexo feminino observado nos recém-nascidos concebidos após a indução da ovulação por fornecimento de gonadotrofinas. Outras hormonas como os estrogéneos e a testosterona podem possuir propriedades selectivas, uma vez que foram encontradas associações entre níveis elevados destas hormonas e uma predominância de zigotos masculinos. O período em que ocorre a fertilização (obviamente ligada com a variação hormonal durante a ovulação) e a frequência coital são variáveis claramente relacionadas com a sex-ratio, com uma maior frequência coital aumentando a probabilidade do sexo do zigoto ser masculino (Chahnazarian, 1988 in Sieff, 1990). O tabagismo é uma variável que também se revela importante na determinação do sexo. Estudos indicam que as mulheres fumadoras têm níveis de estrogéneo e gonadotrofinas mais baixos do que as não fumadoras, apresentando uma sex-ratio reduzida em comparação com estas últimas.
Mas não foi proposto nenhum mecanismo fisiológico que explique como estas hormonas influenciam a sex-ratio.

Conclusão

Outros factores como o nível sócio-económico dos progenitores, o seu ambiente social e psicológico, podem influenciar de modo decisivo a sex-ratio primária e consequentemente a sex-ratio secundária. Diversos estudos indicam que baixas condições sócio-económico baixam a sex-ratio, e boas condições sócio-económicas aumentam o seu valor. Isto pode ser explicado na medida em que uma progenitora em deficientes condições nutricionais ou de saúde difícilmente poderia produzir um macho que pudesse competir contra outros machos, o que lhe baixaria o potencial sucesso reprodutivo. Já uma fêmea não necessita competir com outras fêmeas para poder acasalar. Então, neste caso, uma fêmea revela-se um investimento mais seguro por forma a assegurar a propagação dos genes parentais. Mas um maior sucesso reprodutivo por parte dos machos nascidos num nível sócio-económico superior e das fêmeas num nível sócio-económico inferior ainda está por provar (Clutton-Brock e Iason, 1986).
Não podemos esquecer que a sex-ratio à nascença está íntimamente relacionada com a sex-ratio primária, sendo uma consequência directa desta. Os mecanismos que actuam no sentido de desviar o investimento no sentido desejado começam desde muito cedo, a partir do momento da concepção, manipulação esta que será inconsciente mas eficaz, e que se pode concluir dever-se às pressões selectivas do meio. Posto tudo isto, e tendo presentes as dificuldades impostas pelo uso de um estudo indirecto, não podemos afirmar com toda a certeza que a sex-ratio primária seja de 1:1, ou que tenha quaisquer desvios da igualdade.

Bibliografia

Alvarez, Maria Manuela Pratas (1995) - A Razão dos sexos nos humanos: cur et quomodo., Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, 32 pp.

Benet, J. ; Genesca, A.; Navarro, J.; Egozcue, J. & Templado, C. (1992) - Cytogenetics studies in motile sperm from normal men., Human Genetics, Vol. 89, Nº 2, p. 176-180

Charnov, Eric L. (1982) - The theory of sex allocation,Princeton University Press, 355 pp.

Clutton-Brock, T.H. & Iason, J.R. (1986) - Sex ratio variation in mammals., Quaterly Review of Biology, 61, p. 339-374

Daya, S. & Clark, K.D. (1992) - In vitro fertilization in immunological infertility., Annals of the Academy of Medecine of Singapore, Vol. 21, Nº 4, p. 525-532

Gould, S.J. (1980) - O Polegar do Panda, Gradiva, Lisboa, Edição Port. (1987), p. 77-83

James, W.H. (1986) - Hormonal control of sex ratio. Journal of theoretical biology, Nº 118, p. 427-441

Neye, R.L.; Burt, L.S.; Wright, D.L.; Blanc, W.M. & Tapper, D. (1971) - Neonatal mortality, the male disavantage. , Pediatrics, Nº 48, p. 902-906

Ruffié, Jacques (1987) - O sexo e a morte, Lisboa, Publicações Dom Quixote, p. 65-83.

Sieff, Daniela F. - Explaining biased rex ratios in human populations, Current Anthropology, Vol.31, N.º I, Fevereiro de 1990, p. 25-48

Stinson, S. (1985) - Sex differences in environmental sensivity during grouth and development., Yearbook of physical anthropology, Nº 28, p. 123-147

Trivers, R. L. (1972) - Sexual selection and the descent of man. Chicago, B. Campbell, p. 136-179.

Trivers, R.L. & Willard, D.E. (1973) - Natural selection of parental ability to vary the sex ratio of offspring. Science, Nº 179, p. 90-92


Monday, March 25, 2013

Pink Floyd - Wish You Were Here


Orange Fishes Aquarium Invitation Card
© Illustration: Celia Ascenso | Agency: Dreamstime.com


Wish you were here

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
blue skies from pain.
Can you tell a green field
from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
a walk on part in the war
for a lead role in a cage?

How I wish,
how I wish you were here.
We're just two lost souls swimming in a fish bowl,
year after year,
running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.
Pink Floyd



Queria que estivesses aqui

Então, então achas que consegues distinguir
O Céu do Inferno,
Os céus azuis da dor.
Consegues distinguir um campo verde
de uma trilha de aço frio?
Um sorriso de um véu?
Achas que consegues distinguir?

E eles onseguiram que trocasses
Os teus heróis por fantasmas?
Cinzas quentes por árvores?
Ar quente por uma brisa fresca?
Conforto frio por mudança?
E trocaste
Uma caminhada por um participação na guerra
por um papel principal numa cela?

Como eu queria
Como eu queria que estivesses aqui.
Nós somos apenas duas almas perdidas a nadar num aquário,
ano após ano,
correndo sobre o mesmo velho chão.
O que foi que encontramos?
Os mesmos velhos medos.
Queria que estivesses aqui.

Pink Floyd


Sunday, March 24, 2013

Cavalos Alados

Seamless Virus Flowers
© Illustrator: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Cavalos alados

Um jovem príncipe vivia num país não muito distante. Era muito feliz no seu reino e tinha muitos amigos. O castelo onde vivia era feito de grandes pedras preciosas, mas as cadeiras e as camas eram feitas de madeira, pois os regentes daquele reino não eram assim tão ricos como se possa imaginar.
 
Gostava de passear muitas vezes pelo seu reino sem que ninguém soubesse que ele era o príncipe, pois assim poderia saber como viviam as pessoas normais. Descia muitas vezes à cidade para estar com os seus amigos, e depois subiam todos à montanha para ver e cheirar as flores e espreitar uns cavalos alados que se escondiam por detrás de grandes pedregulhos.
 
Os seus pais já o haviam avisado várias vezes sobre os perigos que representavam aqueles grandes cavalos castanhos com as suas grandes asas brancas. Que quem voava neles nunca mais conseguia parar de o fazer. E ganhava uns pés de chumbo, que tornavam a sua marcha sobre a terra muito difícil.

Mas a curiosidade era imensa. O que haveria de tão especial naqueles cavalos, para que nunca mais se conseguisse parar de voar neles? - " Não há nada que nos obrigue a fazer o que já não queremos fazer mais..." - pensava o príncipe. E a curiosidade ia crescendo, à medida que ia tomando mais conhecimento sobre os cavalos alados.

Um dia decidiu-se. Ele e uns amigos iriam cavalgar nas asas do vento. Só que para que pudessem atrair os cavalos alados, era necessário que lhes dessem de comer pedras preciosas. Quanto maior a pedra preciosa, maior a viagem pelos céus. O príncipe pensou: "Encontrar pedras preciosas não tem problema algum !!! Vou buscá-las ao meu castelo..."
 
E assim foi. Tirou uma pedra preciosa do muro do seu castelo. - " Uma só pedra, ninguém iria dar pela falta dela..." - Tanto que seus pais não poderiam saber que ele finalmente iria experimentar um cavalo alado.

Seguiu até à montanha, procurou os desejados animais, e estendeu a um deles a pedra preciosa. O cavalo alado imediatamente se aproximou dele e engoliu a pedra preciosa. Pequenas estrelas envolveram o príncipe como se formassem um véu, pegando-lhe docemente e colocando-o sobre o cavalo alado. Começou uma viagem inesquecível pelos céus, tão especial que nem o próprio príncipe a poderia descrever. Foi a primeira de muitas.

No início o jovem príncipe ainda descia à cidade para se encontrar com os seus amigos. Mas a pouco e pouco foi perdendo a vontade e o desejo de estar com aqueles que mais ama. Os seus sentidos viravam-se todos para montanha, onde estavam os cavalos alados. De dia para dia, pedra a pedra, o muro em redor do castelo ia desaparecendo.

Os Reis pensaram que seriam perigosos ladrões que lhes estariam a levar as pedras, e reforçaram a guarda ao castelo. Mas em vão. O muro desapareceu por completo. As paredes do castelo começaram por sua vez a desaparecer. O príncipe tinha-se tornado um mestre na arte do engano e da mentira, mas a pouco e pouco, e à medida que o castelo desaparecia, começou a pensar-se que poderia ser ele o responsável pelo desaparecimento. Até porque andava com um comportamento pouco normal. Os Reis finalmente conseguiram falar com o príncipe, e descobrir que a razão pela qual desapareciam as pedras preciosas era porque o príncipe a levava para as dar aos cavalos alados. Por esta altura já todas as torres do castelo tinham desaparecido, e faltava uma grande parte da parede. Mas como o amavam muito, confiaram que poderiam ajuda-lo a parar de viajar nos cavalos alados. Afinal ele era o príncipe, tivera uma educação esmerada, deveria ter a força de vontade suficiente para o conseguir.

Mas seguiram-se insucessos atrás de insucessos. O príncipe voltava sempre à montanha. Todo o castelo desapareceu, finalmente, mas o príncipe não tinha mais para onde ir, e ficou juntos dos Reis, pois estes, apesar de todo o sofrimento que este lhes causou, tinham-lhe um amor incondicional. Em lugar das paredes de pedras preciosas colocaram folhas e troncos para se abrigarem, e havia sempre uma caminha onde dormir e uma cadeirinha onde sentar. Talvez o príncipe tenha procurado pedras preciosas noutras casas, ou noutros reinos. Ninguém sabe. Mas ele conseguia sempre encontrar alguma para que se pudesse dirigir à montanha, em direcção aos seus cavalos alados.
 
O seus únicos desejos relacionavam-se sempre com os cavalos alados. Porque tudo o mais deixou de existir como realidade. Agora, a sua única realidade era voar. Cada vez mais alto, porque as pequenas viagens já não lhe traziam felicidade, não traziam nada de novo. Só serviam para lhe acalmar a ansiedade, pois ele já não sabia nem conseguia viver com os pés sobre a terra, pois estes tinham-se tornado chumbo e não se moviam, e o peso de toda a realidade tombava sobre ele.

Mas o príncipe já não suportava mais. Deveria arranjar forma de voar, voar sempre. Finalmente conseguiu encontrar uma pedra preciosa suficientemente grande para que pudesse voar bem alto. Deu-a ao cavalo alado mais bonito que encontrou, para a sua viagem especial. E começou a voar no seu cavalo, cada vez mais alto... mais alto... mais alto... até que chegou ao Sol e desapareceu nele.

Célia Maria Ribeiro Ascenso
Janeiro 2000

Saturday, March 23, 2013

Rod Stewart - Sailing - Navegando - Voguant


Nut Shell Sailing Boat
© Photographer: Celia Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Sailing

I am sailing, I am sailing
Home again across the sea.
I am sailing, stormy waters
To be near you, to be free


I am flying, I am flying,
Like a bird across the sky>
I am flying, passing high clouds
To be near you, to be free

Can you hear me? Can you hear me?

Through the dark night, far away
I am dying, forever crying
To be with you, who can say?

Can you hear me? Can you hear me?
Through the dark night, far away.
I am dying, forever crying,
To be near you, who can say?

We are sailing, we are sailing,
Home again across the sea.
We are sailing stormy waters,
To be near you, to be free.

Oh Lord, to be near you, to be free.
Oh Lord, to be near you, to be free,
Oh Lord
Sailing
Rod Stewart


 
Navegando

Eu a navegar, estou a navegar
De volta a casa, através do mar.
Estou a navegar sobre águas tempestuosas,
Para estar perto de ti, para ser livre.

Eu a voar, estou a voar
Como um pássaro através do céu.
Estou a voar, passando por nuvens altas,
Para estar perto de ti, para ser livre.

Consegues ouvir-me? Consegues ouvir-me?
Através da noite escura, muito distante.
Eu estou a morrer, chorando para sempre,
Para estar contigo, quem pode dizer?

Consegues ouvir-me? Consegues ouvir-me?
Através da noite escura, muito distante.
Eu estou a morrer, chorando para sempre,
Para estar contigo, quem pode dizer?

Nós estamos a navegar, nós estamos a navegar
De volta para casa, através do mar.
Estamos a navegar sobre águas tempestuosas,
Para estar contigo, para ser livre.

Oh, Senhor, para estar perto de ti, para ser livre.
Oh, Senhor, para estar perto de ti, para ser livre.
Oh, Senhor

Sailing
Rod Stewart
Love Boat Valentines Day Card
© Illustration: Celia Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Voguant

Je vogue, je vogue
Vers la maison, traversant la mer.
Je vogue sur des eaux troublés,
Pour être prés de toi, pour être libre.

Je vole, je vole,
Comme un oiseau dans le ciel.
Je vole, au delà  des hauts nuages,
Pour étre avec toi, pour étre libre.

Peux-tu m'entendre, peux-tu m'entendre
Dans la nuit sombre, loin d'ici,
Je me meurs, pour toujours pleurant,
D'être avec toi, qui peut le dire.

Peux-tu m'entendre, peux-tu m'entendre
Dans la nuit sombre, loin d'ici,
Je me meurs, pour toujours pleurant,
D'être avec toi, qui peut le dire.

Nous vogons, nous vogons,
Vers la maison, traversant la mer.
Nous navigons sur des eaux troublés,
Pour être prés de toi, pour être libre.

Oh Seigneur, pour être prés de toi, pour être libre.
Oh Seigneur, pour être prés de toi, pour être libre.
Oh Seigneur.

Sailing
Rod Stewart

Thursday, March 21, 2013

Sozinho - Caetano Veloso - Alone

Owl on tree hole greeting card
© Illustration: Celia Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Sozinho

Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho os meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?


Cantor - Caetano Veloso
Compositor - Peninha

Alone

Sometimes, in the silence of the night,
I sit and imagine us two
I sit here, daydreaming
Joining the before, the now, and the after

Why do you leave me so free?
Why don't you stick with me?
I'm feeling so alone

I'm not and I don't want to be your owner
But sometimes your love feels so good
I have my desires and secret plans
I only open to you, to no one else

Why do you forget me and disappear?
And if I become interested in someone?
And if she suddenly wins me over?

When people like each other
It's clear that they care for each other
You say that you love me
But you don't mean it

Or you mess with me
Or you aren't ready
Where are you now?

Singer - Caetano Veloso
Composer - Peninha

Wednesday, March 20, 2013

Quando Vier a Primavera - Alberto Caeiro


Polka Dots Tree Greeting Card
© Illustration: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa
11/7/1915 



When Spring comes,
If I’m already dead,
The flowers will bloom the same way
And the trees won’t be less green than they were last Spring.
Reality doesn’t need me.

I feel such an enormous joy
When I think that my death has absolutely no importance

If I knew I’d die tomorrow
And Spring would come the day after tomorrow,
I’d die happy, because it would come the day after tomorrow.
If tha is it’s time, when else should it come?
I like it that everything is real and everything is right;
And I like it because it would be that way, even if I didn’t like it.
So, if I die now, I’ll die happy,
Because everyhting is real and everyhting is right.

They can pray in Latin over my coffin if they want to.
If they want, they dance and sing around it.
I don't have any preferences when I won't be able to have preferences.
What comes, when it comes, it will be what it is.


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa
11/7/1915 

Tuesday, March 19, 2013

Cat Stevens - Father and Son

 

It's not time to make a change
Just relax, take it easy
You're still young, that's your fault
There's so much you have to know
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy


I was once like you are now
And I know that it's not easy
To be calm when you've found
Something going on
But take your time, think a lot
I think of everything you've got
For you will still be here tomorrow
But your dreams may not


How can I try to explain
When I do he turns away again
And it's always been the same
Same old story
From the moment I could talk
I was ordered to listen
Now there's a way and I know
That I have to go away
I know I have to go


It's not time to make a change
Just sit down and take it slowly
You're still young that's your fault
There's so much you have to go through
Find a girl, settle down
If you want, you can marry
Look at me, I am old
But I'm happy


All the times that I've cried
Keeping all the things I knew inside
And it's hard, but it's harder
To ignore it
If they were right I'd agree
But it's them they know, not me
Now there's a way and I know
That i have to go away
I know I have to go


Happy Father's Day Card with Tie
© Illustration: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Love me when I least deserve it...

Älska mig mest, när jag förtjänar det minst, för då behöver jag det bäst.
Svensk ordspråk
Love me when I least deserve it, because that is when I really need it.
Swedish proverb
Umbrella under rain and sunlight greeting card
© Illustration: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com


Aime-moi quand moins je le mérite, parce que c'est quand j'en ai vraiment besoin.
Proverbe suédois

Ama-me quando eu menos mereço, porque é quando eu mais preciso
Provérbio Sueco