Friday, March 8, 2013

Pedra Filosofal - António Gedeão - Philosophical Stone


Inner world heart flowers
© Illustrator: Celia Maria Ribeiro Ascenso | Agency: Dreamstime.com

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão (*) In Movimento Perpétuo, 1956

*pseudónimo do Professor Rómulo de Carvalho.

O poema imortalizado numa canção de Manuel Freire:
The poem in a Manuel Freire's song.

Philosophical Stone

They do not know that the dream 

Is a constant of life
as real and defined
as anything else, 
as this gray stone 
where I sit and rest, 
like this gentle stream 
in seren jolts, 
like this tall pines
that stir in green and gold, 

as these birds that scream
in blue drunkness.

They do not know that the dream 

is wine, is foam, is ferment, 
happy and thirsty little pet, 
with a pointed muzzle, 
sniffing through all 
in a perpetual motion.

They do not know that the dream 

is canvas, is color, is brush,
base, shaft, chapiter, 
pointed arch, stained glass, 
pinnacle of a cathedral,
counterpoint, symphony, 
Greek mask, magic, 
that it is a bottle of an alchemist, 
map of a far away world, 
rose-of-winds, Infant, 
sixteenth century caravel, 
that it is the Cape of Good Hope, 
gold, cinnamon, ivory, 
rapier of a swordsman, 
hoop, dance step, 
Columbine and Harlequin, 
flying airship, 
lightning rods, locomotive, 
festive bow of a boat,
blast furnace, generator,
atom cision, radar, 
ultrasound, television,
landing rocket,
on the lunar surface.

They do not know, or dream, 

that dream commands life,
that whenever a man dreams 
the world leaps and advances 
as a colored ball 
between the hands of a child.

António Gedeão (*) In Movimento Perpétuo, 1956

*pseudonym of Prof. Rómulo de Carvalho.

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